
(Dormindo na posse de Bachelet, com Noe e Lili)
Minha amiga me contava que o desastre com os mineiros (de minas, não de MG) trouxe grande popularidade ao Ministro da Mineração, responsável pelo resgate, e para o governo de Sebastián Piñera. Acabo de ler na Folha "Operação de resgate dos 33 mineiros torna-se mina de ouro para presidente chileno". Como no Chile não há reeleição, especula-se que o Ministro da Mineração aproveite a popularidade oportuna e desponte como candidato governista nas próximas eleições presidenciais.
A trajetória de Michelle Bachelet, talvez poucos saibam, é exatamente essa. Ela foi durante o Governo de Ricardo Lagos a Ministra da Defesa. Desconhecida até 2002, quando houve algum desastre natural (não lembro se enchente ou terremoto - li isso no livro de Isabel Allende, que sem saber que a ministra viraria presidente em 2006, escreveu seu nome num relato publicado também em 2002).
Nas pesquisa espontâneas Bachelet nem era citada pelos eleitores no meio do mandato de Lagos. Aos poucos saiu do zero e se tornou, antes do primeiro turno das eleições, a candidata na dianteira pela coalizão de centro esquerda "Concertación". O governo de Ricardo Lagos era bem avaliado (algo como 80% de avaliação positiva). Sua candidata foi para o segundo turno contra o candidato de centro direita Piñera (que não era o candidato das fileiras pinochetistas, pois havia um candidato da UDI, partido do ex-ditador; Piñera é acionista majoritário da Lan Chile e não fez carreira política na ditadura). Bachelet venceu, em uma eleição bastante pacífica. Lembro que um amigo que votou em Piñera me disse que apoiaria o governo, pois gostava da Bachelet. Mesmo entre os que não votavam nela, Michelle era popular.
Em janeiro de 2010, Piñera venceu o candidato da Concertación Eduardo Frei, ex-presidente e filho de ex-presidente (assassinado pela ditadura), e deu fim a 20 anos de governo da Concertación. A coalizão governou durante todo o período democrático, desde que Pinochet saiu do poder, e só perdeu as eleições quando o ex-ditador morreu. Ainda assim Bachelet fez um governo bastante progressista e terminou tão bem avaliada quanto Lagos. É cotada para 2014.
A história de Dilma não parece a de Bachelet? As duas tiveram trajetórias eleitorais (de primeiro turno) muito semelhantes. Saíram do desconhecimento para o primeiro lugar. Ministras em um governo bastante popular. Candidatas pelo principal partido de esquerda. Tinham uma ampla coalizão de apoio. Enfim, mulheres. Não seria Dilma a Bachelet brasileira? A resposta é não. E por várias razões.
A primeira, a coalizão de Dilma não é a Concertación. Os partidos de esquerda e centro-esquerda chilenos se uniram em 1988 e construíram a "Concertación de Partidos por el No" para derrotar o plebiscito convocado pelo ditador Pinochet com a finalidade de continuar no poder até 1997. Desde que venceram o plebiscito, perceberam que separados, os partidos da coalizão não ganhariam as eleições. Juntos, governaram por 20 anos e impediram qualquer retrocesso democrático. E revezando o partido que encabeçava a chapa presidencial. Hoje estão em crise, pois talvez tenham perdido a razão pelas quais se uniram. A derrota de Eduardo Frei em 2010 é o maior sinal.
Dilma, em contraste, carrega consigo parte do pior que sobrou do período pré-democrático (a outra parte está com o Serra). Aliás, do período democrático também, pois o Collor está lá. Não há na coalizão de Dilma a organicidade que sempre caracterizou o PT. O fisiologismo, antes combatido, é a nova regra. Entra quem for necessário à vitória nas eleições e à maioria congressual. PMDB e PR dão conta de inflar a coalizão. Bachelet representava a perpetuação da democracia. Sei lá o que a Dilma representa nessa altura do campeonato e não descarto a possibilidade de retrocesso.
Exagero meu na possibilidade de retrocesso? Não. E essa é a segunda diferença. O governo trata quem não o apóia como inimigo. Você não concorda com o governo? Então não é patriota. Torce pro Brasil dar errado. É a favor dos ricos, da desigualdade, de uma economia lenta, contra o bolsa-família, contra os pobres. Só falta dizer que torce pra Argentina e quer o Maradona como técnico da seleção brasileira. Não há tolerância à oposição. E a tolerância é a base da democracia.
Não há possibilidade, tal como houve no Chile, de que quem não vota na Dilma goste dela. Tenho redes de amigos bem diversas. Entre os que votaram em Dilma, vários têm vergonha da candidata e/ou do governo e justificam o seu voto contra o Serra. Entre os que votaram na Marina ou no Serra, poucos são os que, como fizeram amigos chilenos, apoiarão e simpatizarão com Dilma. Ou votam Serra ou querem anular no segundo turno. E daí a principal diferença entre Dilma e Bachelet.
Bachelet surgiu dentro do governo como uma liderança espontânea. Foi construindo sua imagem aos poucos durante os 5 anos de governo (5, e não 8). Expunha suas idéias aos jornais, aparecia em público sem barreiras, ousava errar. Cativou a opinião pública. Apareceu como candidata graças às sondagens nas pesquisas e não graças ao esforço do governo. E por isso não dependeu de Ricardo Lagos ou da exposição durante a campanha para ocupar a primeira colocação na corrida presidencial. Era uma candidata da Concertación e não a sucessora de alguém. E Piñera era um candidato muito melhor do que Serra. Até os concertacionistas o respeitavam.
Bachelet era uma candidata que parava em pé sozinha. Dilma não. Dependeu do "dedazo" para virar candidata. Depende da bolha criada pelo marketing eleitoral e de Lula para se eleger. Depende da popularidade baixa de FHC e de comparações bastante injustas e viesadas entre os dois governos para ganhar no segundo turno.
O post não é para avaliar o governo. Nem para declarar meu voto. Sempre me perguntei a razão pela qual eu admirava Bachelet e não conseguia cogitar votar em Dilma. Se são tão parecidas, porque não acreditar que Dilma é a Bachelet brasileira? Se Dilma fosse Bachelet, teria meu voto. Mas não é. Espero que, se eleita, se transforme em alguém diferente do que tem sido. Caso contrário, meu apoio não terá.
Leo, gostei muito do seu post! É a primeira vez que leio o seu blog e acho que o que você escreveu é bastante coeso e informativo. Realmente, Bachelet, que recebeu o título de doutora "honoris causa" na universidade em que eu estava em Barcelona, em maio, foi descrita por todos que puderam falar com ela como uma pessoa extremamente encantadora e carismática. Isso a Dilma não tem e também por esse motivo precisa do Lula para parar em pé. Só queria entender por que você diz que a outra pior parte do período democrático é carregada pelo Serra.
ResponderExcluirUm beijão, saudades!
Simples: os dois candidatos andam muito mal acompanhados.
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